7. ARTES E ESPETCULOS 10.4.13

1. LIVROS  PEDAGOGIA A CAVALO
2. LIVROS  SALVEM AS MUSAS
3. LIVROS  CRNICA DE UM MUNDO DISTANTE
4. MSICA  REDENO POP
5. TELEVISO  FORA NA PERUCA
6. VEJA RECOMENDA
7. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
8. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  MRIO, IMPERADOR DA PRSIA

1. LIVROS  PEDAGOGIA A CAVALO
Inditos de Simes Lopes Neto, o grande nome do regionalismo gacho, revelam um escritor que tinha um projeto generoso e, para sua poca, moderno para a educao das crianas
JERNIMO TEIXEIRA

     Cultuado pelos leitores gachos mas no to conhecido fora dos limites do Rio Grande do Sul, Simes Lopes Neto  um escritor difcil de definir. Comea pelo fato de ter sido um autor prolfico, que escreveu crnicas, artigos de jornal, conferncias, poemas, peas de teatro, mas cujo lugar na histria literria brasileira se deve a apenas dois magros volumes, de limitada repercusso ao tempo em que foram publicados: Contos Gauchescos, de 1912, e Lendas do Sul, de 1913. E a brevidade dessas duas obras  juntas, no chegam a 250 pginas  constrasta com a capacidade que elas tm de conjurar toda uma paisagem, uma sociedade, um sistema de valores: o mundo das estncias, do gacho a cavalo cuja vida ao mesmo tempo subalterna e livre se sustentava por empregos temporrios na economia pecuria do Rio Grande do Sul no sculo XIX e incio do XX. Esse milagre deu-se sobretudo pela linguagem: a voz de Blau Nunes, o gacho campeiro que narra os Contos Gauchescos,  de uma vitalidade cheia de cor e detalhe, e sem uma s nota de afetao. O lxico empregado, porm, ter limitado a recepo da obra. Sem o auxlio de um glossrio, dificilmente o leitor sergipano ou fluminense entender que uma "chinoca candongueira"  uma caboclinha graciosa  e no sero muitos os gachos urbanos de hoje que sabero que gado reiuno  o que no tem dono definido, que pasta livre no campo. Da deriva uma contradio ulterior: que um escritor to vinculado  matriz popular e folclrica, o contista que fez do peo do campo o seu heri, tenha se tornado afinal um objeto de culto dos happy few, um "escritor para escritores" ( sintomtico que, sempre que se fala do gacho Joo Simes Lopes Neto, seja obrigatrio lembrar a influncia que ele teria exercido sobre outro Joo dado a experimentos com a linguagem oral, o mineiro Guimares Rosa). Como saldo desses contrastes e contradies, tem-se um escritor que ainda segue  espera de uma revalorizao. Pois bem: um caminho para a reavaliao crtica  a publicao criteriosa de inditos, e a esto, numa exemplar edio anotada, dois livros que permitem conhecer uma nova face de Simes Lopes Neto  o pedagogo. Artinha de Leitura e Terra Gacha (Belas-Letras; 200 e 275 pginas; kit com os dois por 69,90 reais), organizados pelo crtico, escritor e professor da UFRGS Lus Augusto Fischer  que j organizara uma excelente edio anotada de Contos Gauchescos e Lendas do Sul, publicada pela L&PM , representam um generoso, porm malogrado, projeto para a educao infantil.
     Professor, jornalista, empresrio, dramaturgo: Joo Simes Lopes Neto tentou a sorte em vrias atividades. Nascido em 1865, em Pelotas, cidade do sul gacho que contava com uma respeitvel vida cultural, era neto de um grande proprietrio de terras, uma das maiores fortunas do estado. O adolescente estrbico passou anos como estudante no Rio de Janeiro, mas de l voltou sem diploma universitrio. A herana que lhe coube com a morte do av no foi prodigiosa, dispersa que ficou entre uma parentela numerosa. Entre seus empreendimentos de relativo sucesso, esteve uma fbrica de cigarros da marca Diabo. A escolha da marca tinha uma justificativa iconoclasta: outros cigarros vendidos em Pelotas levavam nomes de santo, e por isso o escritor empresrio buscou um personagem do outro time. Ao morrer, em 1916, em consequncia do rompimento de uma lcera no duodeno, o autor j estava prximo da penria. Desassistida, sua viva parece ter se ressentido dos projetos literrios do marido, que to parco resultado deram. Vendeu ou dispersou seus papis. Os dois livros editados agora foram por muito tempo dados como perdidos. 
     Artinha de Leitura  uma cartilha de alfabetizao, que o autor esperava ver adotada nas escolas do Rio Grande do Sul. Submeteu a obra  aprovao das autoridades educacionais em 1908, mas ela foi recusada por suas inovaes  adorava j a ortografia reformada preconizada pela Academia Brasileira de Letras. Destinada tambm ao uso em sala de aula, Terra Gacha  obra para crianas maiores, que j dominam a leitura. Descreve um ano escolar na vida do garoto Maio. Na primeira parte do livro, Maio fala de suas frias em uma estncia de Pelotas, com saborosas descries das atividades campeiras  a doma de cavalos, o rodeio para marcar o gado, as trovas de viola no galpo (lembra de longe A Estepe, do russo Anton Tchekov, tambm a histria de um menino em idade escolar que toma contato com a vida mais rude do interior). A segunda parte, dedicada  vida na escola, j em ambiente urbano, tem uma nota cvica muito marcada. Na classe de Maio, forma-se um improvvel microcosmo da nao brasileira: l estudam colegas de todos os estados, com exceo do recm- incorporado Acre. O autor no concluiu o livro, mas  de supor que haveria captulos didticos dedicados  histria de cada estado. A inspirao aqui era Cuore (Corao), livro para crianas de grande sucesso do italiano Edmondo de Amicis, no qual tambm se representavam todas as regies da Itlia recm-unificada.
     "Est vendo aquele umbu, l embaixo,  direita do coxilho?", diz Blau Nunes em um dos Contos Gauchescos  e o leitor de imediato v a rvore em meio ao campo. Terra Gacha j ensaia o uso da rica linguagem regional empregada no livro posterior. Mas o menino Maio no tem a voz vigorosa do ancio Blau. Terra Gacha, de resto, tinha fins no estritamente literrios: pretendia instruir e educar os pequenos leitores. Ensina o respeito aos mais velhos, censura a caa de passarinhos, incute a solidariedade aos desfavorecidos. Em que pese o tom moralizante e patrioteiro, h tambm uma ideia generosa de educao, de uma escola regida, sim, pela disciplina, mas tambm pela criatividade, por uma ideia comum de nao e tradio, pelo amor ao conhecimento e pelo incentivo  inquietude intelectual. Terra Gacha ficou por concluir: e seu ideal, por se realizar.


2. LIVROS  SALVEM AS MUSAS
Em seus ensaios, Milan Kundera, o consagrado romancista checo de A Insustentvel Leveza do Ser, dedica-se a cultivar a evanescente tradio da arte literria maiscula.

     Diz a histria que a orquestra do Titanic continuou a tocar enquanto o navio afundava. Essa tem sido tambm a atitude do checo Milan Kundera, 84, o romancista de A Insustentvel Leveza do Ser, em seu trabalho de ensasta. O pano de fundo dos seus textos  o lento naufrgio das tradies artsticas  em especial, da arte do romance  e a ascenso da misomusia, palavra inventada pelo autor para designar o desprezo pelas musas. Contra isso, Kundera se obstina em pr a arte  e no a poltica, a tecnologia, a cincia, a economia ou qualquer outra coisa  no centro da vida. "No sou apegado a nada, exceto ao depreciado legado de Cervantes", disse ele h mais de vinte anos, numa referncia ao criador de Dom Quixote e do romance moderno. A mesma melodia continua a ecoar em sua coletnea mais recente, Um Encontro (traduo de Teresa Bulhes Carvalho da Fonseca; Companhia das Letras; 173 pginas; 37 reais), recm-lanada no Brasil. 
     Filho de um pianista, Kundera gosta de usar o vocabulrio da msica. Digamos ento que, na esteira de trs livros anteriores  A Arte do Romance, Os Testamentos Trados e A Cortina , Um Encontro  como o quarto movimento de uma sinfonia: uma pea de andamento rpido, que rene 26 ensaios em menos de 200 pginas. Os assuntos so muitos: a pintura de Francis Bacon, a msica de Beethoven e Schoenberg, os romances de Curzio Malaparte, o exlio, o cinema... Em meio  variedade, retornam obsesses, como a importncia do humor, a natureza do romance  que ele define como ferramenta de explorao existencial , os livros de Franz Kafka e Franois Rabelais. Quando aborda um autor especfico, Kundera  capaz de anlises muito precisas. O que no o impede de passar, em seguida, a uma generalizao ou a uma tirada de sabor quase filosfico. Como esta: "Cada vez com mais frequncia afirmo (uma coisa to evidente e que no entanto nos escapa) que o homem no existe seno em sua idade concreta, e que tudo muda com a idade. Compreender o outro significa compreender a idade que ele est atravessando. O enigma da idade: um desses temas que s um romance pode ilustrar". 
     Mas, como dito, a perambulao entre temas e ideias acontece ao redor de um ncleo fixo: a paixo pela grande tradio artstica. Em um dos textos de Um Encontro, Kundera procura entender por que seu compatriota, o compositor checo Leos Jancek, ainda no foi aceito entre os gnios do modernismo. Ele acaba por descrev-lo como um corredor de uma perna s. A "perna" que faltou a Jancek foi a defesa de seu programa esttico. "Todas as correntes modernas sempre lutaram ao mesmo tempo por sua arte e por seu programa esttico", diz Kundera. O sentido desse argumento  que o discurso sobre arte  to fundamental quanto a prpria produo artstica: ele mantm a luz acesa e a conversa em curso, estabelece o mrito de uma obra em relao a outras, cativa novatos. Kundera tem clareza absoluta em relao a isso, da a razo de praticar h tantos anos no apenas a arte do romance, mas tambm a de falar sobre livros e sobre suas ligaes com o restante da cultura. Ele o faz como autntico ensasta, e no como crtico  personagem de quem desconfia por considerar que seu uso do jargo e da teoria , na verdade, o disfarce de um "misomuso". No so muitos os autores que ainda hoje se dedicam, com a mesma fidelidade e a mesma graa, a essa tarefa. O peruano Mrio Vargas Llosa. O turco Orhan Pamuk. O sul-africano J.M. Coetzee. No, infelizmente, nmero suficiente para formar uma orquestra. 
CARLOS GRAIEB


3. LIVROS  CRNICA DE UM MUNDO DISTANTE
O Livro do Travesseiro, escrito por uma aristocrata japonesa mil anos atrs, ainda fala intimamente ao leitor.
NELSON ASCHER

     Cabelos negrssimos abaixo da cintura, rosto empoado de branco, lbios pintados de vermelho para parecerem diminutos, dentes esmaltados de preto, sobrancelhas raspadas e redesenhadas mais acima, e vestindo nas ocasies formais um complexo quimono chamado "o traje de doze peas (ou camadas) sobrepostas", uma dama da corte do Japo medieval movia-se num mundo que, de to minuciosamente codificado, faria o dia a dia nos palcios de Lus XIV ou da rainha Vitria parecer uma colnia hippie. Cada mincia indumentria, os inumerveis gestos e demais movimentos possveis do corpo, as mais mnimas nuances da linguagem e at do silncio, tudo j havia sido previsto, arrolado e reservado para homens ou mulheres de tal ou qual origem, condio, nvel hierrquico, funo, emprego ou faixa etria obrigatoriamente utilizarem ou evitarem. E tanto a estrita aderncia como desvios quase imperceptveis da norma tinham significados relevantes que eram condizentemente interpretados. Essa sociedade cortes consciente e obsessivamente apegada  complexidade de seus cdigos e hbitos, de sua esttica, cerimnias, trejeitos e rebuscamentos atingiu o apogeu durante a era Heian (794-1192), nome ento da nova capital (a atual Kyoto). E foram justamente duas aristocratas que mais sensvel e exaustivamente a esmiuaram para a posteridade: Murasaki Shikibu (c. 978-1026), autora da extensa Narrativas de Genji, o primeiro romance psicolgico e de costumes da histria da humanidade, e sua contempornea Sei Shnagon (c. 966-1020), que nos legou uma obra bem diferente, agora lanada no Brasil em traduo direta do original: O Livro do Travesseiro (vrios tradutores; Editora 34; 616 pginas; 78 reais), uma espcie de dirio assistemtico composto das mais variadas e inesperadas observaes, lembranas, palpites, ideias. 
     Se por longos sculos os japoneses, admirando a civilizao e cultura muito mais desenvolvidas de sua vizinha, a China imperial, imitaram-lhe os costumes, literatura e artes, assimilaram sua filosofia e religio e chegaram inclusive a adotar sua escrita, na era Heian eles comearam a criar, com vigor e originalidade, sua prpria cultura  e o primeiro florescimento literrio significativo do Japo ocorreu na virada do milnio, nos sculos X e XI. Curiosamente, as mulheres ocuparam l desde cedo um papel central. E  um fato tambm que em seguida, durante o meio milnio que precedeu a Restaurao Meiji e a ocidentalizao do pas na segunda metade do sculo XIX, no apareceram mais escritoras japonesas de primeira grandeza, razo a mais para dar ateno a uma autora to nica e estranha como Sei Shnagon. 
     Oriunda da nobreza e de uma linhagem de eruditos e escritores, ela tornou-se em sua juventude aia ou dama de companhia da imperatriz, vivendo na corte desta durante o ltimo decnio do sculo X, quando parece que redigiu boa parte de seu livro. Reunindo cerca de trs centenas de "entradas", a obra conta ocorrncias da corte e fala dos costumes da poca. Traz listas, muitas listas, nas quais arrola coisas que exalam requinte, que parecem belas, que aborrecem, constrangem, perturbam, decepcionam. O Livro do Travesseiro entremostra ademais a personalidade e os estados de nimo da autora e, na sua soma, forma um mosaico capaz de evocar vivamente um pas e uma poca  ou, mais precisamente, uma parte deles na qual a perfumaria era tida como uma arte em nada inferior  pintura ou  msica, os flertes e as intrigas amorosas tinham de obedecer a regras to precisas quanto a coreografia de um bal, e uma bela caligrafia equivalia  beleza fsica e espiritual, a tal ponto que os cortesos se apaixonavam perdidamente pela dona da mo que pusera no papel, com traos elegantssimos, algum breve poeminha. De resto, esta edio (a qual, muitssimo bem anotada, constitui uma pequena enciclopdia da vida no Japo medieval) apresenta-nos uma voz singular que, a meio mundo e mil anos de distncia, consegue se dirigir a ns direta e intimamente, por exemplo, quando afirma: "Invejar ou se lamuriar, falar acerca dos outros, querer saber dos mnimos detalhes e ficar ressentido e rancoroso se no o conseguir, ou, ainda, espalhar aos demais o pouco que sabe exagerando-o, como se j conhecesse o assunto. Isso tudo  muito desagradvel". 

A PEQUENA FELICIDADE 
Havia ocasies em que, frente  Sua Consorte Imperial, eu conversava com outras damas, ou em que ela mesma proferia algumas palavras. Um dia, eu disse: 'Quando estou muito irritada com o mundo, desgostosa, sem um momento de paz, consolo-me por completo ao me chegar s mos papis simples, alvssimos e belos e um pincel de boa qualidade, e penso, afinal, que tudo est bem, acho possvel viver por mais um tempo dessa maneira'.
Trecho de O Livro do Travesseiro


4. MSICA  REDENO POP
Delta Machine, 13 disco do Depeche Mode, mostra como o grupo ingls saiu do pop inocente da dcada de 80 para se tornar referncia da msica eletrnica.

O anjo do amor desceu sobre mim / E, Senhor, eu me senti to elevado / E, Senhor, me senti to limpo..." Fossem cantados por qualquer outro nome da msica pop, os versos de Angel soariam piegas. Mas, na voz de Dave Gahan, do grupo ingls Depeche Mode, eles fazem todo o sentido. Gahan, de 50 anos, sobreviveu a quatro encontros com a morte. Ex-viciado em herona (foram tantas overdoses que os paramdicos de Los Angeles, onde morou no incio dos anos 90, o apelidaram de "O Gato"), ele sofreu um infarto em 1993; dois anos depois, tentou o suicdio cortando os pulsos; no ano seguinte, teve uma overdose de speedball (mistura de cocana e herona); e, em 2009, retirou um tumor maligno da bexiga. Quando interpreta algo como Angel  cuja letra, alis,  do companheiro de banda Martin Gore , ele soa no como um pop star, mas como algum que realmente conheceu o fundo do poo e d graas pela redeno. 
     A faixa faz parte de Delta Machine, seu melhor trabalho em anos e um atestado de sobrevivncia no s de Gahan, mas do prprio grupo  dos poucos da dcada de 80 que sobrevivem a uma reviso histrica. O Depeche Mode foi tanto pop quanto experimental: alternou de temas solares como I Just Can't  Get Enough (at hoje presena garantida em festinhas embaladas a flashback) a canes que falavam sobre sadomasoquismo (Master and Servant) e solido (Enjoy lhe Silence). Embora empapuadas de teclados, nenhuma delas ficou datada  mal que acometeu grande parte da produo eletrnica do perodo. 
     A longevidade, no entanto, no  obra do acaso. O tecladista e guitarrista Martin Gore  um timo compositor (boa parte dos sucessos citados  de sua autoria), e Gahan tem um delicioso registro de bartono. As apresentaes da banda, tambm, so impecveis. O mais crucial, porm,  a recusa do Depeche Mode em viver do passado e a determinao de se renovar a cada lanamento. Para tanto, a banda costuma agregar novos nomes ao seu time habitual de colaboradores. Em Delta Machine, o sueco Christoffer Berg responde pela maior parte das programaes  e muitas so pontuais, como a batidinha insistente em Soft Touch/Raw Nerve. Welcome to My World  outra faixa impressionante, na qual Gahan canta sobre uma base monocrdica de teclado, a qual em seguida d espao a um belo arranjo de cordas. E, se Slow e Goodbye esto mais para o blues do Mississippi do que para a msica eletrnica europeia, Soothe My Soul tem o apelo danante que tanto deu fama ao grupo. "Vou atrs de voc como um junkie", canta Gahan. Certos hbitos nem a bno dos anjos consegue apagar. 
SRGIO MARTINS


5. TELEVISO  FORA NA PERUCA
No telefilme Phil Spector, o famoso produtor musical condenado por assassinato ganha o benefcio da dvida.

     No incio dos anos 70, quando era considerado o maior produtor da msica pop, ostentando no currculo sucessos dos Beatles e de Tina Turner, entre outros, o americano Phil Spector sofreu um acidente de carro que o desfigurou. Passou ento a usar perucas extravagantes e tornou-se um sujeito decadente e esquisito. A pior tragdia ainda estava por vir. Em 3 de fevereiro de 2003, ele foi preso sob a acusao de assassinar uma atriz de segunda linha. A loira Lana Clarkson teve o crnio estourado por um tiro disparado com o cano da arma dentro de sua boca. A morte aconteceu na manso onde o produtor vivia cercado de colees de armas e bustos de polticos assassinados (alm de perucas, muitas perucas). Em 2009, graas ao testemunho decisivo de um motorista brasileiro, Spector foi condenado a dezenove anos de priso  s deve sair aos 88 anos. Na cadeia, o inventor da revolucionria tcnica de gravao conhecida como "parede sonora"  um amalgama de instrumentos e vozes capaz de realar a reproduo das canes nas rdios AM  no teve autorizao para ver o telefilme de tribunal que agora recupera o episdio. Apesar da semelhana fsica impressionante exibida por Al Pacino no papel, o condenado talvez no se reconhecesse no espelho oferecido pelo roteirista e diretor David Mamet em Phil Spector (Estados Unidos, 2013), que estreia na HBO no sbado 13, s 22 horas. Mas pode-se supor que tampouco rejeitaria o filme: Mamet, afinal, lhe concede o benefcio da dvida. 
     Mais que ao personagem-ttulo encarnado por Al Pacino com uma canastrice que aqui funciona a favor da verossimilhana, a conduo da trama cabe  advogada Linda Kenney Baden, vivida com a eficincia de praxe pela inglesa Helen Mirren. Sem emprego e sofrendo de uma gripe sem trgua, ela abraa com relutncia um cliente tido como indefensvel. Spector tem fixaes bizarras, delrios de grandeza e histrico de ameaas contra mulheres e msicos (o filme no fala, mas at os roqueiros dos Ramones foram vtimas). Embora de incio esteja certa de que defende um assassino, um pormenor tcnico vai minando o juzo da advogada. Spector tem cara e jeito de culpado. Mas e se no tivesse mesmo puxado o gatilho? Tomada de forma isolada, a discusso tem a sutileza dos melhores trabalhos de Mamet, e convence at bem perto do final. Mas, ainda que na abertura se anuncie no se tratar da histria do produtor, mas de um voo livre inspirado nela, o confronto com o desfecho real do caso torna essa trilha frgil. A fora de Phil Spector reside na incerteza  mas da vem tambm sua fraqueza. 
MARCELO MARTHE


6. VEJA RECOMENDA
DVDs
ENTRE INIMIGOS (INTO THE WHITE, NORUEGA/SUCIA, 2012. UNIVERSAL)
 Trs pilotos alemes so abatidos sobre a Noruega, em pleno inverno, e se refugiam em uma pequena cabana de caa  um deles, o mais novo e mais convictamente nazista (David Kross, de O Leitor), com um grave ferimento no brao. Logo tero companhia: dois pilotos ingleses, derrubados durante a mesma ao. Os alemes tm pistolas; os ingleses, no. E, assim, confinados pelo frio devastador no espao de uns poucos metros quadrados, os cinco personagens vo encenar as vicissitudes do conflito maior do qual fazem parte. Dirigida pelo noruegus Petter Naess, esta produo  bem menos filme de guerra que drama moral: valendo-se das oposies ideolgicas, ticas e culturais entre Inglaterra e Alemanha durante a II Guerra Mundial, pouco a pouco decanta as afinidades que aproximam, por exemplo, o soldado ingls proletrio (Rupert Grint, o Ron Weasley de Harry Potter, surpreendendo) do industrial alemo insatisfeito (Stig Henrik Hoff, timo), e o inseguro tenente alemo (Florian Lukas, o ponto alto do elenco) do capito ingls acostumado ao privilgio (Lachlan Nieboer). Detalhe: a
histria  verdica.

SOUND CITY (ESTADOS UNIDOS, 2013. SONY Music)
 Este documentrio marca a estreia como cineasta de Dave Grohl, lder dos Foo Fighters. Grohl conta a histria do estdio Sound City, onde foram gravados alguns dos discos mais importantes da histria do rock  entre eles After the Gold Rush, de Neil Young, Rumours, do Fleetwood Mac, e Nevermind, do Nirvana (banda em que Grohl atuava como baterista). O resultado vai um pouco alm dos numerosos  e inexpressivos  documentrios sobre astros do rock e locais icnicos do showbiz. Embora narre muitas histrias sobre o que aconteceu no estdio, ele d detalhes tcnicos de por que ele tinha uma sonoridade to especial  com destaque para a sala onde ficava a bateria  e traz uma discusso pontual sobre a importncia das novas tecnologias no mundo da msica. Grohl d voz tanto a defensores quanto a detratores das traquitanas que permitem ao produtor alterar vozes e editar instrumentos para obter um melhor resultado artstico. A parte final, embora resvale na pieguice,  salva pelos convidados de Grohl  entre eles Paul McCartney, que se junta a ex-integrantes do Nirvana (Grohl, o baixista Krist Novoselic e o guitarrista Pat Smear) para cantar a agressiva Cut Me Some Slack.

LIVROS
MORTE EM PEMBERLEY, DE P.D. JAMES (TRADUO DE SONIA MOREIRA; COMPANHIA DAS LETRAS; 344 PGINAS; 44 REAIS)
 Jane Austen (1775-1817) est entre os autores ingleses mais adaptados para o cinema e a televiso. Sua popularidade nos ltimos tempos chegou at a onda dos mash-ups literrios, que embaralharam os personagens dos romances clssicos Orgulho e Preconceito e Razo e Sensibilidade com zumbis, monstros marinhos e at com erotismo. Entretanto, Morte em Pemberley pertence a um estrato mais elevado. Com pompa, circunstncia e muito suspense, a grande dame do crime P.D. James escreveu a continuao de Orgulho e Preconceito em forma de apetitosa trama policial. Elizabeth Bennett e Fitzwilliam Darcy esto casados h seis anos quando, na vspera de um grande baile na propriedade da famlia, o ex-amigo do anfitrio, Wickham,  encontrado no bosque, bbado e ensanguentado ao lado de um homem que acaba de ser brutalmente assassinado. Nada  o que parece ser e todos tm algo a esconder, inclusive o casal de protagonistas. A impecvel prosa da autora mantm o equilbrio preciso entre pardia e homenagem.

EM BUSCA DE UM FINAL FEUZ, DE KATHERINE Boo (TRADUO DE MARIA ANGELA AMORIM DE PASCHOAL; Novo CONCEITO; 288 PGINAS; 29,90 REAIS)
 Casada com um indiano e temporariamente estabelecida em Mumbai, a jornalista americana Katherine Boo acompanhou durante quatro anos, a partir de um incidente terrvel  uma mulher que ateou fogo a si mesma para culpar os vizinhos, com sucesso, por tentativa de homicdio , a vida de um punhado de moradores de Annawadi, uma das medonhas favelas da cidade. At para o padro brasileiro de convivncia habitual com misria e degradao urbana o relato  chocante: o impacto do abjeto sistema de castas, da corrupo sem limites da polcia e do Judicirio e da absoluta ausncia de atendimento de sade, saneamento ou educao  visto aqui no como uma abstrao, mas pelo que significa para gente como Abdul, o garoto que cata lixo e faz planos para ascender com o lucro que tantos considerariam pfio. Katherine, experiente nesse tipo de cobertura e ganhadora do Prmio Pultizer, no apenas d contornos a pessoas que em seu prprio mundo so invisveis, como faz um retrato visceral de uma sociedade que comea a tomar contato com um conceito tantalizador  o de oportunidade.

DISCO
ALOHA FROM HAWAII VIA SATELLITE, ELVIS PRESLEY (SONY)
 Aloha from Hawaii foi o primeiro concerto de rock transmitido via satlite  foi ao ar ao vivo para mais de quarenta pases, em janeiro de 1973  e traz Elvis num patamar superior ao do moleque insolente dos primeiros anos de carreira. Escolado pelas temporadas nos cassinos de Las Vegas e acompanhado pela TCB Band (arregimentada e liderada pelo fantstico guitarrista James Burton), Elvis se alterna entre sucessos do seu repertrio (Hound Dog, Bine Suede Shoes) e releituras. H timas verses de Something, dos Beatles, e de I'm So Lonesome I Could Cry, de Hank Williams. Essa ltima, alis,  um dos grandes momentos do espetculo, at porque o cantor ainda lambia as feridas do divrcio de sua mulher, Priscilla. Aloha from Hawaii originalmente saiu como LP duplo, trazendo o show e o ensaio que o precedeu  filmado para o caso de haver algum problema durante a transmisso. A nova edio sai acrescida de cinco faixas-bnus e cinco faixas que tinham sido gravadas no ps-show e exibidas somente na transmisso para os Estados Unidos .


7. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. O Lado Bom da Vida  Matthew Quick. INTRNSECA
2. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
3. Cinquenta Tons de Liberdade  E.L. James. INTRNSECA 
4. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA
5. Toda Poesia  Paulo Leminski. COMPANHIA DAS LETRAS
6. A Culpa  das Estrelas  John Green. INTRNSECA
7. Garota Exemplar  Gillian Flynn. INTRNSECA 
8. Morte Sbita  J. K. Rowling. NOVA FRONTEIRA
9. Toda Sua  Sylvia Day. PARALELA 
10.   Uma Curva na Estrada  Nicholas Sparks. ARQUEIRO 

NO FICO
1. Subliminar  Como o Inconsciente Influencia Nossas Vidas  Leonardo Mlodinow. ZAHAR
2. Nada a Perder  Edir Macedo. PLANETA
3. O Livro de Filosofia  Vrios. GLOBO 
4. O Livro da Psicologia.  Nigel Benson. GLOBO 
5. Lincoln  Doris Kearns Goodwin. RECORD
6. Danuza & Sua Viso de Mundo sem Juzo  Danuza Leo. AGIR 
7. O Homem que No Queria Ser Papa  Andreas Englisch. UNIVERSO DOS LIVROS
8. Giane  Vida, Arte e Luta  Guilherme Fiuza. PRIMEIRA PESSOA 
9. A Outra Histria do Mensalo  Paulo Moreira Leite. GERAO EDITORIAL
10. Catarina, a Grande: Retrato de uma Mulher  Robert K. Massie. ROCCO

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
2. Uma Prova do Cu  Dr. Eben Alexander III. SEXTANTE
3. S o Amor Consegue  Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA 
4. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER 
5. Como Convencer Algum em 90 Segundos  Nicholas Boothman. UNIVERSO DOS LIVROS
6. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Martins. GENTE 
7. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 
8. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE
9. As 25 Leis Bblicas do Sucesso  William Douglas e Rubens Teixeira. SEXTANTE 
10. No se Desespere! Mario Sergio Cortella. VOZES


8. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  MRIO, IMPERADOR DA PRSIA
     A Cmara Municipal de So Paulo est na iminncia de reverenciair o homem certo com a homenagem errada. O homem certo  Mrio Covas, dono de uma biografia que, na contramo do geral ceticismo e de no poucas evidncias, prova a existncia de polticos dignos no Brasil. A homenagem errada  conferir seu nome ao Viaduto do Ch, no centro de So Paulo, antiga e das mais simblicas vias da cidade. A proposta de dar o nome de Covas ao viaduto dormia na Cmara desde a morte do ento governador, em 2001. Foi ressuscitada nas ltimas semanas e tem o apoio de 45 dos 55 vereadores. 
     A construo do Viaduto do Ch, inaugurado em 1892, quando So Paulo tinha 130.000 habitantes, constituiu-se numa das obras mais decisivas  se no a mais decisiva  j ousadas na cidade. Sua funo era transpor o vale que, tendo ao fundo o riacho do Anhangaba, separava a colina em que se assentava o centro histrico da elevao do lado oposto. Imagine-se a dificuldade que, antes, enfrentava quem precisasse ir de um lado ao outro.  Tinha de descer uma dura escarpa, seguir uma picada no meio do mato, l embaixo, atravessar uma das pontes sobre o riacho e escalar a escarpa do outro lado. O viaduto representou a libertao da futura metrpole do ovo em que a aprisionava o stio original  uma colina cercada pelos rios Tamanduate e Anhangaba e por vrzeas inundveis. O nome "do Ch" pode parecer estranho a uma cidade que, j ento, comeava a ser conhecida como capital do caf, mas tinha sua razo de ser: plantaes de ch estendiam-se por aquela rea. 
     Mudar o nome do viaduto  iniciativa que se insere na geral leviandade com que, Brasil afora, as cmaras municipais se utilizam da prerrogativa de nomear e renomear logradouros pblicos. No passado de So Paulo, h casos em que o fenmeno chegou ao limite da loucura. Quando, na Guerra de Canudos, em 1897, morreu o coronel Moreira Csar, propagandeado como um heri nacional, resolveu-se dar seu nome  Rua de So Bento, uma das primeiras da cidade, conhecida como tal havia dois sculos. Mais adiante, em 1927, sob o choque da morte do governador do estado, o presidente, como se dizia na poca, Carlos de Campos, decidiu-se trocar o nome da Avenida Paulista pelo do falecido. Nos dois casos, ao ataque da loucura sucedeu a retomada da razo, e em pouco tempo as duas vias voltaram a ostentar os nomes originais. 
     No Brasil como um todo, o mais aberrante caso dos ltimos tempos foi o da febre de renomeaes que se seguiu  morte do deputado baiano Lus Eduardo Magalhes, filho e herdeiro poltico do cacique Antonio Carlos Magalhes. Ruas, avenidas e praas, em cada recanto da Bahia, tiveram suas placas mudadas, para homenagear o falecido  e ao mesmo tempo, claro, fazer um agrado ao desolado pai. Nada escapou da sanha homenageadora/bajuladora. At mesmo uma cidade, antes conhecida como Mimoso do Oeste, passou a chamar-se Lus Eduardo Magalhes, e foi cumprir a triste sina das cidades com nome de gente, um de cujos inconvenientes  a aspereza do gentlico (lus-eduardense? magalhense?). Mas o pior dos atentados foi atribuir ao falecido o nome do aeroporto de Salvador, antes conhecido corno "2 de Julho", a sacrossanta data da independncia da Bahia. Como o foram permitir os baianos? Como o permitem at hoje? Revolvei-vos, cidados de boa terra! 
     A sanha renomeadora volta-se em geral contra vias, locais ou equipamentos que no tm nome de gente.  o caso do Aeroporto 2 de Julho, da Avenida Paulista e tambm do Viaduto do Ch, nome tradicional, dado pelo povo. Fica mais fcil, pois tirar nome de gente equivale a desrespeitar a memria histrica do destronado, ou ofender-lhe a famlia. Ch, em princpio, no reclama. Para apaziguarem os que se insurgem em nome da tradio, os vereadores de So Paulo propem-se no a substituir o antigo nome, mas a acrescentar-lhe o novo. Viaduto do Ch Mrio Covas seria a nova denominao. O truque j foi usado antes, na mesma So Paulo, quando o Tnel 9 de Julho passou a ser chamado de Tnel 9 de Julho Daher Elias Cutait. Virou um nome que, ao tentar homenagear ao mesmo tempo uma data (a do incio da chamada Revoluo de 1932) e uma pessoa, homenageia uma e outra apenas pela metade. No caso do Viaduto do Ch Mrio Covas, os estrangeiros ficaro em dvida se "Mrio Covas"  uma marca de ch ou se "Ch" designa, com ortografia errada, um antigo imperador da Prsia chamado Mrio Covas. 


